COVID-19:
Não sei muito bem qual o melhor título
a utilizar e , para não cair em imprecisões, deixarei desta vez os “Exmos.
“Caros”, “ilustres” ou “venerandos” de lado. E desde já me penitencio, caso o
meu tratamento informal seja melindroso. A verdade é que és muito jovem para
que te tenha de tratar de qualquer outra forma. Poupo-me também aos
cumprimentos e saudações iniciais, que por tua causa foram quase excluídos das
práticas dos portugueses a quem a emotividade, obrigava aos apertos de mão,
beijinhos ou abraços. Até Sua Excelência o Sr. Presidente da República adotou o
indiano “Namastê”, pelo menos para cumprimentar o Sr. Primeiro-ministro António
Costa.
Começo por confessar, que há uma
coisa em ti que admiro: a forma como da realidade microscópica te tornaste em
poucos meses no predicado mais falado em todo o mundo. Como Social-democrata
que sou, defendo a meritocracia, pelo que tenho de te reconhecer o teu sucesso.
O status que atingiste em nada se deveu à tua condição financeira,
apelido, e como por tua causa se cancelaram todo o tipo de atos eleitorais,
também acredito que, certamente, não andaste a recolher assinaturas nem a colar
cartazes ou a apelar ao voto por ninguém a quem nas redes sociais, chamaste de
teu ídolo ou mentor.
Em boa verdade tu não tens
qualquer preferência ou posição no espectro político, já que começaste por
infetar a suposta anticapitalista República Popular da China e depois os seus rivais
americanos. Isto para não falar do coração da Europa, onde tens dizimado
milhares de vidas e infetado outras tantas, onde nem o primeiro ministro
britânico te escapou. E quase que era de vez! Quase não fosse ter arranjado um
fiel escudeiro… peço desculpa, um fiel enfermeiro português, que o acompanhou, imigrado,
já que em Portugal se paga melhor a uma empregada doméstica, que a um
enfermeiro licenciado que lida com vidas. E com isto não me interpretes mal,
que eu sei que, não distingues entre classes, graus académicos, raças ou
etnias. Tando infetas um cigano, como um deputado ou um comentador desportivo.
E claro está, não podia deixar de
referir que nem “o cantinho à beira mar plantado”, bem aqui, na cauda da Europa
tu poupaste. O que é que tu fostes arranjar: o que vai ser dos portugueses sem
Fátima no 13 de maio? Pelo menos não impediste as centrais sindicais de
comemorarem o Dia do Trabalhador, e sejamos honestos, também não incomodaste muito
os festejos do 25 de Abril no Parlamento
E já que se falou de Portugal.
Tenho de te dizer: é graças a ti que o país está a aprender a dar o salto
tecnológico que faltava. Impressionante todo o teletrabalho que se tem
desenvolvido à tua custa! Agilizámos a nossa comunicação e aprendemos a compartimentar
tarefas e serviços que até aqui nos ocupavam deslocações tempo e dinheiro, os
quais percebemos agora perfeitamente inúteis. Menos um desperdício. Oxalá não
desaprendamos nada disto, quando tu nos deixares.
Podias isso sim, era ter-nos
poupado ao excesso de conteúdo que tenho visto ser vomitado pelas redes sociais
fora. Consegue ser doloroso para o intelecto e para o sentimento de vergonha
alheia. De repente, toda a gente se sente na necessidade de opinar sobre como
viver em quarentena, como se fossemos todos uns génios capazes de inventar
sempre algo novo que outros não tenham dito ainda. Nem que não passe de um
pelágio disfarçado de sinónimos ou, quando nem disso somos capazes, uma frase
feita, acompanhada de uma imagem de que nos apropriamos à toa num qualquer
motor de pesquisa. Mas enfim, #VaiFicarTudoBem #FicaEmCasa.
Outro requinte da tua
genialidade, está para com os profissionais de saúde. Nem sempre lhes soubemos
dar o devido reconhecimento. Nem quando somos mencionados, como um dos países
cimeiros em cuidados de saúde do mundo. Desta vez, os bombeiros não estão a ser
lembrados pelo fogo, mas antes, pelas máscaras cirúrgicas, viseiras e luvas de
latex. Agora, a cada serviço que fazem, mais do que nunca, eles correm o risco
acrescido pelo teu contágio. Pode até não ser um incêndio, mas como se diz na
gíria, isto é uma casa a arder. Já nem vou falar dos nossos hospitais. Saudades
de quando o que nos preocupava era a despesa excessiva com os médicos
tarefeiros.
O teu encanto também se fez
sentir na justiça, ainda que mais tardiamente. Demorou para que suspendessem as
contagens de prazos. Mais vale tarde que nunca. Mas também já nos habituamos a
que os advogados e solicitadores sejam a ralé da justiça. Só é pena que assim
não seja no momento das contribuições para a Caixa de Previdência dos Advogados
e Solicitadores.
Falta por fim fazer uma pergunta:
Atendendo a crise económica que nos vais deixar, o quão será agravada a sodomia
fiscal dos portugueses?
Concluo esta carta aberta com um
agradecimento final: Obrigado porque graças a ti voltamos a aprender a
liberdade de amar. Amar com sinceridade, sem a necessidade e hipocrisia de
gestos desprovidos de sentimentos sinceros. Há muito que os nossos afetos eram
embebidos de hipocrisia e cinismo e agora, que fomos obrigados a dispensá-los,
limitamo-nos a amar, apenas transpondo esse sentimento, quando ele é justo e
verdadeiro.
Igualmente obrigado por nos teres
tornado ainda mais semelhantes por meio da vulnerabilidade que nos tens feito
sentir de cada vez que inspiramos, que tocamos em algum objeto, que lavamos e
desinfetamos cada extremidade do nosso corpo.
Finalmente, peço que por meio da
nossa natureza social, nos permitas crescer sempre na harmonia, concórdia
tolerância e comunidade, e que por meio desses valores saibamos construir a
equidade.
Valter Vieira
Valter Vieira

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