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Carta Aberta à COVID-19 – Uma sátira em tempos de Pandemia, por Valter Vieira


COVID-19:
Não sei muito bem qual o melhor título a utilizar e , para não cair em imprecisões, deixarei desta vez os “Exmos. “Caros”, “ilustres” ou “venerandos” de lado. E desde já me penitencio, caso o meu tratamento informal seja melindroso. A verdade é que és muito jovem para que te tenha de tratar de qualquer outra forma. Poupo-me também aos cumprimentos e saudações iniciais, que por tua causa foram quase excluídos das práticas dos portugueses a quem a emotividade, obrigava aos apertos de mão, beijinhos ou abraços. Até Sua Excelência o Sr. Presidente da República adotou o indiano “Namastê”, pelo menos para cumprimentar o Sr. Primeiro-ministro António Costa.
Começo por confessar, que há uma coisa em ti que admiro: a forma como da realidade microscópica te tornaste em poucos meses no predicado mais falado em todo o mundo. Como Social-democrata que sou, defendo a meritocracia, pelo que tenho de te reconhecer o teu sucesso. O status que atingiste em nada se deveu à tua condição financeira, apelido, e como por tua causa se cancelaram todo o tipo de atos eleitorais, também acredito que, certamente, não andaste a recolher assinaturas nem a colar cartazes ou a apelar ao voto por ninguém a quem nas redes sociais, chamaste de teu ídolo ou mentor.
Em boa verdade tu não tens qualquer preferência ou posição no espectro político, já que começaste por infetar a suposta anticapitalista República Popular da China e depois os seus rivais americanos. Isto para não falar do coração da Europa, onde tens dizimado milhares de vidas e infetado outras tantas, onde nem o primeiro ministro britânico te escapou. E quase que era de vez! Quase não fosse ter arranjado um fiel escudeiro… peço desculpa, um fiel enfermeiro português, que o acompanhou, imigrado, já que em Portugal se paga melhor a uma empregada doméstica, que a um enfermeiro licenciado que lida com vidas. E com isto não me interpretes mal, que eu sei que, não distingues entre classes, graus académicos, raças ou etnias. Tando infetas um cigano, como um deputado ou um comentador desportivo.
E claro está, não podia deixar de referir que nem “o cantinho à beira mar plantado”, bem aqui, na cauda da Europa tu poupaste. O que é que tu fostes arranjar: o que vai ser dos portugueses sem Fátima no 13 de maio? Pelo menos não impediste as centrais sindicais de comemorarem o Dia do Trabalhador, e sejamos honestos, também não incomodaste muito os festejos do 25 de Abril no Parlamento
E já que se falou de Portugal. Tenho de te dizer: é graças a ti que o país está a aprender a dar o salto tecnológico que faltava. Impressionante todo o teletrabalho que se tem desenvolvido à tua custa! Agilizámos a nossa comunicação e aprendemos a compartimentar tarefas e serviços que até aqui nos ocupavam deslocações tempo e dinheiro, os quais percebemos agora perfeitamente inúteis. Menos um desperdício. Oxalá não desaprendamos nada disto, quando tu nos deixares.
Podias isso sim, era ter-nos poupado ao excesso de conteúdo que tenho visto ser vomitado pelas redes sociais fora. Consegue ser doloroso para o intelecto e para o sentimento de vergonha alheia. De repente, toda a gente se sente na necessidade de opinar sobre como viver em quarentena, como se fossemos todos uns génios capazes de inventar sempre algo novo que outros não tenham dito ainda. Nem que não passe de um pelágio disfarçado de sinónimos ou, quando nem disso somos capazes, uma frase feita, acompanhada de uma imagem de que nos apropriamos à toa num qualquer motor de pesquisa. Mas enfim, #VaiFicarTudoBem #FicaEmCasa.
Outro requinte da tua genialidade, está para com os profissionais de saúde. Nem sempre lhes soubemos dar o devido reconhecimento. Nem quando somos mencionados, como um dos países cimeiros em cuidados de saúde do mundo. Desta vez, os bombeiros não estão a ser lembrados pelo fogo, mas antes, pelas máscaras cirúrgicas, viseiras e luvas de latex. Agora, a cada serviço que fazem, mais do que nunca, eles correm o risco acrescido pelo teu contágio. Pode até não ser um incêndio, mas como se diz na gíria, isto é uma casa a arder. Já nem vou falar dos nossos hospitais. Saudades de quando o que nos preocupava era a despesa excessiva com os médicos tarefeiros.
O teu encanto também se fez sentir na justiça, ainda que mais tardiamente. Demorou para que suspendessem as contagens de prazos. Mais vale tarde que nunca. Mas também já nos habituamos a que os advogados e solicitadores sejam a ralé da justiça. Só é pena que assim não seja no momento das contribuições para a Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores.
Falta por fim fazer uma pergunta: Atendendo a crise económica que nos vais deixar, o quão será agravada a sodomia fiscal dos portugueses?
Concluo esta carta aberta com um agradecimento final: Obrigado porque graças a ti voltamos a aprender a liberdade de amar. Amar com sinceridade, sem a necessidade e hipocrisia de gestos desprovidos de sentimentos sinceros. Há muito que os nossos afetos eram embebidos de hipocrisia e cinismo e agora, que fomos obrigados a dispensá-los, limitamo-nos a amar, apenas transpondo esse sentimento, quando ele é justo e verdadeiro.
Igualmente obrigado por nos teres tornado ainda mais semelhantes por meio da vulnerabilidade que nos tens feito sentir de cada vez que inspiramos, que tocamos em algum objeto, que lavamos e desinfetamos cada extremidade do nosso corpo.
Finalmente, peço que por meio da nossa natureza social, nos permitas crescer sempre na harmonia, concórdia tolerância e comunidade, e que por meio desses valores saibamos construir a equidade.

Valter Vieira

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